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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Petra


Soa o despertador às sete em ponto da manhã. Petra agarra-se a ele e tenta roubar-lhe um pouco do seu cheiro beijando-lhe o pescoço, para depois o levar nas narinas e nos lábios e [re]cheirá-lo, [re]beijá-lo ao longo do dia.

Ele meio adormecido gira o seu corpo e tenta prendê-la numa atitude de egoísmo romântico, querendo-a só para ele, mesmo que seja só nesses breves segundos em que o faz, sonâmbulo de amor.

No duche ela organiza mentalmente o seu dia.

Primeiro a roupa – “a saia preta justa pelo joelho de racha atrás e de cinta subida com a camisola vermelha de gola alta, lingerie, meias de ligas pretas e os sapatos vermelhos de salto alto; depois as matrizes para as reuniões de trabalho; a lembrança do telefonema de confirmação para tomar um copo de vinho ao fim do dia com uma amiga que precisa desesperadamente de um conselho ou um sorriso e abraço seu; as compras do dia para o jantar ou a [in]decisão de simplesmente ir jantar fora com ele e de o provocar por baixo da mesa com os seus pés deambulantes que saltitam dos sapatos para o seu sexo, o pagar apressado e embaraçado da conta, os sorrisos cúmplices que fazem corar o empregado de mesa, o calçar trôpedo dos sapatos que quase a fará tropeçar numa das patas da mesa ao desejar possuí-lo já, ali, sentada em cima dele naquela mesma cadeira estilo Luís XV. O esperado chegar a casa, o frenesim de arrancar a roupa com a pele agarrada e o desejo latente que os faz fazer amor mesmo ali, meio despidos, encostados à parede de entrada da casa. Os gritos de súplica, o arquear da espinha, os sexos molhados vibrando uma música que só dois corpos apaixonados sabem tocar. O êxtase, o grito, encavalitada nele, subindo e descendo com o impulso das suas mãos nas nádegas dela, ardentes. Os seus braços agarrando-lhe o pescoço de tal forma que mais parecia que o iria esganar pela parte de trás da garganta. O silêncio, depois. O repousar dos corpos que nem tempo tiveram para lavar os dentes e adormecem transpirados de suor e sexo, meios de lado naquela cama que deixaram hoje de manhã...

Soa o despertador às sete em ponto da manhã. Petra estica o braço e sente a cama vazia. Ainda não foi hoje que o encontrou. O corpo que tinha bebido ontem mandou-o embora junto com a amargura que ele lhe ofereceu ao lhe dizer “Não sei se posso [quero] ficar”.


O significado do nome Petra vem do latim “pedra”: sabe cativar os outros e manter um convívio harmonioso e agradável. É muito hábil e altruísta. Afectivamente, dedica-se com paixão, sendo sensual e atraente. É exuberante nas suas manifestações mas não perdoa retorno morno ou indeciso.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Leila




Os telhados costumam congelar em Dezembro as lágrimas dos meses de Setembro e Outubro; e da tristeza fazem-se esculturas e obras de arte para os turistas fotografarem.
Leila congelava momentos em fotos e reproduzia emoções num trabalho a full-time com muitas horas extraordinárias.

– Uma chávena de café, por favor.
E click fotografou a frase no olhar do empregado de mesa que lhe dizia "sim, eu sei, um café preto e puro, como poucos homens há". Todos os dias lhe servia o (mesmo) café e todos os dias se lembrava dessa (mesma) frase e da forma com que, serpenteando dos seus lábios, o atingiu desde o dia que a conheceu.

– Vai querer levar outro café?
Leila trabalhava exaustivamente, muitas vezes mais do que 24 horas sem parar e 99% das vezes levava [outro] café. Entre o estúdio, o escritório, as ruas, o Cais do Sodré e as redes dos pescadores de Sintra derretia-se congelando momentos [dos outros].
Para si, tinha mais vida e propósito a objectiva da sua máquina fotográfica do que ela.

– Vai querer levar outro café? – perguntou de novo o empregado.
Ela tragou[o] café e disse-lhe que "não, obrigada". Ele insistiu que talvez se arrependesse, tal como noutras madrugadas leu no seu olhar semi-escondido por trás da máquina fotográfica com a qual se protegia.
E no segundo seguinte arrependeu-se [ele] quando a viu queimar a [sua] ternura com um novo serpentear letal.
– O café [hoje] está queimado. E há já alguns dias que não me tem sabido bem... Acho que terei que procurar outro. É tão difícil encontrar um bom café.

Leila fotografou as lágrimas congeladas dos grãos-olhos dele e pensou que os homens são como o café, na maioria dos sítios servem-se queimados. E é preciso ser muito perspicaz ou ter uma sorte dos diabos para se encontrar uma boa cafetaria onde sirvam um bom homem. E que mais sorte ainda precisaria para conseguir um Dezembro em que se consiga plantar grãos de café em corações (enre)gelados.



Leila em Árabe, significa negra como a noite. independente e determinada, trabalha ardentemente para conseguir o que deseja. Por isso, sabe dar valor ao que possui e não tolera desperdícios. Tende a ser feliz na maturidade, depois de muitas paixões...
Ver também nesta Sequência de Contos, Edna e Margaret

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Edna


Edna, Edna, Edna, Edna, Edna. Já não suporto sequer ler o nome dela. Parecem cópias ininterruptas de Edna’s que vieram para me estilhaçar, para espezinhar os pedaços de cristais frágeis dos quais sou composta. E esfregar-me bem na cara o seu diploma de mestrado (enrolado num tubo de ouro reluzente) em superioridade, de mulher elitista superior a qualquer outra raça. Expõe-me a um espelho partido reflectido nos seus olhos, à sujidade que represento, as páginas em branco que eu não posso preencher, e, o vazio, a solidão com que me(o) prendou.

Queria arrancar com um garfo afiado a parte do meu coração doente e dar-lho para que ela se pudesse alimentar do último pedaço teu. Oferecer-lho numa bandeja, como ela quase fez comigo, depois de ter usado e sugado tudo, o que ainda importava, depois de ter descaradamente levado com ela um saco a transbordar dos únicos sentimentos que alguma vez ousaras dar-te ao luxo de desfrutar.

Quero libertar-me dela, mas agarra-se a mim como um carrapato, aquela imagem da cara dela, da mulher perfeita – perfeitamente perversa – e que fica ali congelada e perfeita para
sempre, s e m p r e, s e m p r e...
Tentei expulsá-la, rejeitá-la, ignorá-la, mas ela faz parte de nós. Não a quero comigo, connosco. Asfixia-me a vertigem em que entrei desde que aceitei este amor, e, até ela ~vertigem ~ carrega o seu nome, Edna.
Do teu, do meu só restam pedaços rotos, pisados, magoados. Tentativas de restauros com fita-cola do Lidl e psicologia barata fornecida com a cortesia do terapeuta surdo-mudo enviado pelo Centro de Apoio aos Doentes de alto Risco de Desespero e Agonia Total, nada tem surtido qualquer efeito.

E a aorta que liga o coração à felicidade foi secando, foi ficando enrugada, cansada e triste, foram secando os órgãos, mirraram os pulmões, quase não conseguem fornecer ar ao amor para ele conseguir respirar.
Queria poder gritar Edna, Edna, Edna, rasgar o seu nome do meu peito até ela deixar de existir. Mas não tenho forças, não tenho fôlego, e o alerta vermelho PERIGO, PERIGO, PERIGO DE MORTE é inútil, já rebentaram as baterias extra, já foram gastas há muito tempo.
Já quase me afoguei, mas rejeitei a atitude suicida de me deixar afundar em lágrimas, num último suspiro de desespero.

A tua imagem deixou de parecer real e tornas-te (uma vez mais) num sonho, numa ilusão, uma pincelada com os tons da perfeita perdição. A minha voz abandonou-me, também, e ficou apenas uma sombra dela e de mim no ar, misturada com o teu perfume.
A paisagem escurece, de repente e um lobo uiva.
Consegui soltar um último suspiro – BASTA! – antes de congelar de olhos siderados na imagem dum benjamim branco que insistia em depositar-me um lilás ao colo.
Ouviu-se o eco perpetuar esse meu último grito, BASTA!
Não aguentei viver-te, morri[te].
Ver também nesta Sequência de Contos, Margaret e Leila

Pic by territoire intime