sexta-feira, 19 de março de 2010

Avestruz



Às vezes somos como as avestruzes. Enterramos a cabeça num imenso buraco negro onde não se poderão encontrar respostas. E, um vez acostumados às vendas e amarras torna-se difícil ver claramente e enfrentar o sol e a vida lá fora.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Petra


Soa o despertador às sete em ponto da manhã. Petra agarra-se a ele e tenta roubar-lhe um pouco do seu cheiro beijando-lhe o pescoço, para depois o levar nas narinas e nos lábios e [re]cheirá-lo, [re]beijá-lo ao longo do dia.

Ele meio adormecido gira o seu corpo e tenta prendê-la numa atitude de egoísmo romântico, querendo-a só para ele, mesmo que seja só nesses breves segundos em que o faz, sonâmbulo de amor.

No duche ela organiza mentalmente o seu dia.

Primeiro a roupa – “a saia preta justa pelo joelho de racha atrás e de cinta subida com a camisola vermelha de gola alta, lingerie, meias de ligas pretas e os sapatos vermelhos de salto alto; depois as matrizes para as reuniões de trabalho; a lembrança do telefonema de confirmação para tomar um copo de vinho ao fim do dia com uma amiga que precisa desesperadamente de um conselho ou um sorriso e abraço seu; as compras do dia para o jantar ou a [in]decisão de simplesmente ir jantar fora com ele e de o provocar por baixo da mesa com os seus pés deambulantes que saltitam dos sapatos para o seu sexo, o pagar apressado e embaraçado da conta, os sorrisos cúmplices que fazem corar o empregado de mesa, o calçar trôpedo dos sapatos que quase a fará tropeçar numa das patas da mesa ao desejar possuí-lo já, ali, sentada em cima dele naquela mesma cadeira estilo Luís XV. O esperado chegar a casa, o frenesim de arrancar a roupa com a pele agarrada e o desejo latente que os faz fazer amor mesmo ali, meio despidos, encostados à parede de entrada da casa. Os gritos de súplica, o arquear da espinha, os sexos molhados vibrando uma música que só dois corpos apaixonados sabem tocar. O êxtase, o grito, encavalitada nele, subindo e descendo com o impulso das suas mãos nas nádegas dela, ardentes. Os seus braços agarrando-lhe o pescoço de tal forma que mais parecia que o iria esganar pela parte de trás da garganta. O silêncio, depois. O repousar dos corpos que nem tempo tiveram para lavar os dentes e adormecem transpirados de suor e sexo, meios de lado naquela cama que deixaram hoje de manhã...

Soa o despertador às sete em ponto da manhã. Petra estica o braço e sente a cama vazia. Ainda não foi hoje que o encontrou. O corpo que tinha bebido ontem mandou-o embora junto com a amargura que ele lhe ofereceu ao lhe dizer “Não sei se posso [quero] ficar”.


O significado do nome Petra vem do latim “pedra”: sabe cativar os outros e manter um convívio harmonioso e agradável. É muito hábil e altruísta. Afectivamente, dedica-se com paixão, sendo sensual e atraente. É exuberante nas suas manifestações mas não perdoa retorno morno ou indeciso.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Aqui


Después de haber recorrido el mundo entero en busca de la felicidad, te das cuenta de que estaba en la puerta de tu casa.



Proverbio africano

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bye Bye 2009, Welcome 2010


2009 foi um ano positivo para mim, com surpresas, muitas mudanças, ponto altos e baixos como todos. Nasceu a minha primeira sobrinha, casa nova, novos sonhos, o mesmo [GRANDE] amor, mais maduro, mais feliz, mais tranquilo, mais simples, e, menos, menos complicado, menos confuso, menos inseguro, e mais, mais confiante, mais feliz, mais puro.

Descoberta do ano 2009: Sim, é possível ser feliz. Temos é que deixar de nos preocupar tanto com isso e viver [a felicidade].




Por isso digo ADEUS a 2009 e OLÁ a 2010.
Espero que tenham um ano cheio de brilho.Até p’ró anoooooooooo!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Leila




Os telhados costumam congelar em Dezembro as lágrimas dos meses de Setembro e Outubro; e da tristeza fazem-se esculturas e obras de arte para os turistas fotografarem.
Leila congelava momentos em fotos e reproduzia emoções num trabalho a full-time com muitas horas extraordinárias.

Uma chávena de café, por favor.
E click fotografou a frase no olhar do empregado de mesa que lhe dizia "sim, eu sei, um café preto e puro, como poucos homens há". Todos os dias lhe servia o (mesmo) café e todos os dias se lembrava dessa (mesma) frase e da forma com que, serpenteando dos seus lábios, o atingiu desde o dia que a conheceu.

– Vai querer levar outro café?
Leila trabalhava exaustivamente, muitas vezes mais do que 24 horas sem parar e 99% das vezes levava [outro] café. Entre o estúdio, o escritório, as ruas, o Cais do Sodré e as redes dos pescadores de Sintra derretia-se congelando momentos [dos outros].
Para si, tinha mais vida e propósito a objectiva da sua máquina fotográfica do que ela.

– Vai querer levar outro café? – perguntou de novo o empregado.
Ela tragou[o] café e disse-lhe que "não, obrigada". Ele insistiu que talvez se arrependesse, tal como noutras madrugadas leu no seu olhar semi-escondido por trás da máquina fotográfica com a qual se protegia.
E no segundo seguinte arrependeu-se [ele] quando a viu queimar a [sua] ternura com um novo serpentear letal.
– O café [hoje] está queimado. E há já alguns dias que não me tem sabido bem... Acho que terei que procurar outro. É tão difícil encontrar um bom café.

Leila fotografou as lágrimas congeladas dos grãos-olhos dele e pensou que os homens são como o café, na maioria dos sítios servem-se queimados. E é preciso ser muito perspicaz ou ter uma sorte dos diabos para se encontrar uma boa cafetaria onde sirvam um bom homem. E que mais sorte ainda precisaria para conseguir um Dezembro em que se consiga plantar grãos de café em corações (enre)gelados.



Leila em Árabe, significa negra como a noite. independente e determinada, trabalha ardentemente para conseguir o que deseja. Por isso, sabe dar valor ao que possui e não tolera desperdícios. Tende a ser feliz na maturidade, depois de muitas paixões...
Ver também nesta Sequência de Contos, Edna e Margaret

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Cá estamos nós outra vez


Viagens atribuladas, encontros furtivos, palavras magoadas, sorrisos roubados, emoção, medo, sofrimento, alegria, amor, encontros e reencontros. Perdemos alguns aviões, encontramo-nos noutros aeroportos e viagens (algumas vezes sem contarmos). Esquecemo-nos de quem éramos, de com quem estávamos e encontrámo-nos, encontrávamo-nos. E um dia deixámos para trás a bagagem do passado, ele abraçou-me, recolheu-me pela mão, deu-me um beijo "a cinquenta e tal graus".


Mais uma etapa nas nossas vidas, new keys, new home;)
Quem já nos conhecia e acompanhou o início desta história de amor creio que nunca diria... mas, cá estamos nós outra vez;)



Olá
sempre apanhaste o tal comboio
eu já perdi dois ou três
entre o ócio e as esquinas
ganhei o vício da estrada
nesta outra encruzilhada.
Talvez agora a coisa dê
o passado foi à história
cá estamos nós outra vez.

Conheço a tua cara
mas não sei o teu nome
escrevo já aqui
não sei o quê arroba ponto com
eu vou-te reencontrar
noutro bar de estação
ou talvez quando perder mais um avião.

O barco vai de saída
tu estás tão bronzeada
é tão bom ver-te assim
ardendo, tão queimada.
Eu quero reencontrar-te
noutra esquina qualquer
sem saber o teu nome
se ainda és mulher
quero reconhecer-te
e beber um café
dizer-te de onde venho
e perguntar-te porquê
sorrir-te cá do fundo
e subir os degraus
eu quero dar-te um beijo
a cinquenta e tal graus
eu quero dar-te um beijo
a cinquenta e tal graus.

Sempre apanhaste o tal comboio
eu já perdi dois ou três
entre o ócio e as esquinas
ganhei o vício da estrada
nesta outra encruzilhada
talvez agora a coisa dê
o passado foi à história
cá estamos nós outra vez
cá estamos nós outra vez...

Jorge Palma – Olá

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Edna


Edna, Edna, Edna, Edna, Edna. Já não suporto sequer ler o nome dela. Parecem cópias ininterruptas de Edna’s que vieram para me estilhaçar, para espezinhar os pedaços de cristais frágeis dos quais sou composta. E esfregar-me bem na cara o seu diploma de mestrado (enrolado num tubo de ouro reluzente) em superioridade, de mulher elitista superior a qualquer outra raça. Expõe-me a um espelho partido reflectido nos seus olhos, à sujidade que represento, as páginas em branco que eu não posso preencher, e, o vazio, a solidão com que me(o) prendou.

Queria arrancar com um garfo afiado a parte do meu coração doente e dar-lho para que ela se pudesse alimentar do último pedaço teu. Oferecer-lho numa bandeja, como ela quase fez comigo, depois de ter usado e sugado tudo, o que ainda importava, depois de ter descaradamente levado com ela um saco a transbordar dos únicos sentimentos que alguma vez ousaras dar-te ao luxo de desfrutar.

Quero libertar-me dela, mas agarra-se a mim como um carrapato, aquela imagem da cara dela, da mulher perfeita – perfeitamente perversa – e que fica ali congelada e perfeita para
sempre, s e m p r e, s e m p r e...
Tentei expulsá-la, rejeitá-la, ignorá-la, mas ela faz parte de nós. Não a quero comigo, connosco. Asfixia-me a vertigem em que entrei desde que aceitei este amor, e, até ela ~vertigem ~ carrega o seu nome, Edna.
Do teu, do meu só restam pedaços rotos, pisados, magoados. Tentativas de restauros com fita-cola do Lidl e psicologia barata fornecida com a cortesia do terapeuta surdo-mudo enviado pelo Centro de Apoio aos Doentes de alto Risco de Desespero e Agonia Total, nada tem surtido qualquer efeito.

E a aorta que liga o coração à felicidade foi secando, foi ficando enrugada, cansada e triste, foram secando os órgãos, mirraram os pulmões, quase não conseguem fornecer ar ao amor para ele conseguir respirar.
Queria poder gritar Edna, Edna, Edna, rasgar o seu nome do meu peito até ela deixar de existir. Mas não tenho forças, não tenho fôlego, e o alerta vermelho PERIGO, PERIGO, PERIGO DE MORTE é inútil, já rebentaram as baterias extra, já foram gastas há muito tempo.
Já quase me afoguei, mas rejeitei a atitude suicida de me deixar afundar em lágrimas, num último suspiro de desespero.

A tua imagem deixou de parecer real e tornas-te (uma vez mais) num sonho, numa ilusão, uma pincelada com os tons da perfeita perdição. A minha voz abandonou-me, também, e ficou apenas uma sombra dela e de mim no ar, misturada com o teu perfume.
A paisagem escurece, de repente e um lobo uiva.
Consegui soltar um último suspiro – BASTA! – antes de congelar de olhos siderados na imagem dum benjamim branco que insistia em depositar-me um lilás ao colo.
Ouviu-se o eco perpetuar esse meu último grito, BASTA!
Não aguentei viver-te, morri[te].
Ver também nesta Sequência de Contos, Margaret e Leila

Pic by territoire intime